A Trilogia Shakespeariana de Gianni De Luca e Raoul Traverso / Sigma
Quando procurei informações, a única imprensa online onde mencionam o nome do tradutor é a Central Comics, o qual é o Professor João Miguel Lameiras.
Felizmente, o Público encomendou um artigo de apresentação ao tradutor e professor.
Shakespeare reinventado por Gianni De Luca.
Tal como as peças de Shakespeare que a inspiraram, a Trilogia de Gianni De Luca é uma obra intemporal e inovadora.
Depois de terem publicado pela primeira vez em livro em Portugal, Sergio Toppi e Guido Crepax, o PÚBLICO e a Levoir (desta vez em parceria com a editora A Seita) fecham a “santíssima trindade” dos mais inovadores desenhadores italianos de fumetti do século XX, com a publicação da Trilogia Shakespeariana, de Gianni De Luca, lançada, não por acaso, no Dia Mundial do Livro, 23 de Abril, que coincide com o dia da morte de Shakespeare.
Nascido em 1927, em Gagliato, na Calábria, De Luca, que se definia como “alguém que conhece os seus limites, mas que sobretudo não tem medo de reconhecer as suas capacidades”, foi desenhador, pintor, ilustrador e gravador, tendo, como o próprio refere numa longa entrevista à sua filha Laura, “nascido com um lápis nas mãos”. Fabuloso desenhador multipremiado, com destaque para o Yellow Kid para o Melhor Desenhador Italiano no Festival de Lucca, em 1971, e para o Prémio de Melhor Desenhador estrangeiro no Festival de Angoulême, de 1975, De Luca nunca obteve um reconhecimento internacional junto do grande público, semelhante ao dos seus ilustres conterrâneos, como Hugo Pratt, Milo Manara ou mesmo Sergio Toppi. Talvez isso se deva a ter feito toda a sua carreira ao serviço da imprensa católica juvenil, em publicações como Il Vittorioso ou Il Giornalino, destinadas a um público muito específico e algo fechado.
Mas essa falta de reconhecimento popular não impediu de ser considerado pelos seus pares como um dos mais revolucionários autores de BD do século XX a nível mundial, tendo influenciado artistas como Frank Miller, Bill Sienkiewicz, Dave McKean, Bruno Redondo e Mikel Janin, para falar só daqueles que referem explicitamente essa influência.
De entre as largas dezenas de histórias que ilustrou, destaca-se a série Il Commissario Spada, escrita por Gianluigi Gonano, um marco da narrativa policial em BD, que reflecte a própria evolução da sociedade italiana da época. Mas o pináculo da sua carreira, que lhe valeu a distinção de “o mais revolucionário dos desenhadores conservadores”, foi a famosa trilogia shakespeariana feita em articulação com Sigma (pseudónimo do escritor Raoul Traverso) e publicada na revista Il Giornalino, entre 1975 e 1976.
Aqui, De Luca leva mais além as experiências narrativas, iniciadas em Il Commissario Spada, sobre a concepção da página como um todo, jogando com a planificação de uma forma inovadora, abolindo gradualmente a divisão da página em quadrados, para criar um espaço amplo em que as personagens evoluem como num plano-sequência, criando diferentes percursos de leitura de acordo com as situações narradas.
A primeira peça de Shakespeare a ser transposta para a BD foi A Tempestade e a principal inovação de De Luca, a de usar a página como um palco no qual se moviam e interagiam os personagens, é usada aqui de forma ainda moderada, para se tornar a regra nas adaptações seguintes, Hamlet e Romeu e Julieta. Há uma clara evolução estilística e um crescendo dramático e expressivo nessas três histórias, que culmina em Romeu e Julieta, história inteiramente contada com recurso a duplas páginas que se tornam o palco onde as personagens se movem e contracenam, com os elementos arquitectónicos a marcarem os tempos das cenas. Se o bardo inglês dizia que “o mundo é um palco”, De Luca transportou esse palco para as suas magníficas ilustrações de dupla página.
Os cenários, que o desenhador reconstrói com grande rigor e elegância, ganham também uma importância maior, transformando a (dupla) página num espaço muito detalhado, que permite que o fluxo da narração se mova em vários níveis, incorporando soluções da grande pintura medieval tardia e renascentista, que aqui são recuperadas e actualizadas.
Tal como as peças de Shakespeare que a inspiraram, a Trilogia de Gianni De Luca é uma obra intemporal e inovadora. Uma obra que, 50 anos após a sua publicação original, é finalmente editada em português de Portugal.


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