Et la joie de vivre - Gisèle Pelicot - a minha tradução

do excerto publicado pelas Editions Flammarion.


 



 

Curiosidade: Os títulos e as capas das várias edições internacionais. A original quis a autora numa pose, porventura, menos convencional, as edições inglesa, espanhola, alemã e italiana preferiram uma pose simétrica e sorridente. Os títulos destas edições são todos tradução da frase Um hino à vida, e não do original francês, E a alegria de viver.

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    É sempre de véspera que ponho a mesa para o pequeno-almoço. Disponho as tigelas, os pratos, os talheres, os guardanapos, depois o mel e os boiões de compota. É como saltar a noite que sempre receei, decretar a harmonia do próximo dia. Restará tirar a manteiga, ligar a chaleira, deixar os aromas do café e das torradas encherem o ar. Vai correr tudo bem.

    Por conseguinte, preparei tudo nessa noite. Até tirei a roupa que o Dominique iria vestir. Chamemos-lhe Dominique. Nunca lhe chamei assim, preferia a ternura dos diminutivos, Doumé, Mino e, depois, nunca mais soube o que lhe chamar. Disse Senhor. Senhor Pelicot. Agora que escrevo a nossa história, a minha escolha é tratá-lo pelo nome de baptismo. Tirei do roupeiro as calças de veludo verde-garrafa e a camisa polo Lacoste que os filhos lhe ofereceram. Devíamos comparecer na esquadra na manhã seguinte.

    A reunião estava marcada para as 9h30. Tomámos o café a ouvir as notícias na RTL. A pandemia mundial do covid recrudescia, nesse outono de 2020. Entrava em vigor novo confinamento. Eu contemplava o céu pela janela da cozinha, estava bom tempo, sugeri um longo passeio nessa tarde, como uma contra-ordem às # do governo e, certamente, um remédio para a convocatória da manhã. O Dominique, sentado diante de mim, não reagiu. Recordei que o meu irmão Michel faria sessenta e nove anos nesse dia, se fosse vivo, pois estávamos a 2 de Novembro. Ele suspirou que não gostava de Novembro, que não era um mês bom, sem dúvida numa alusão a todas as facturas e avisos por pagar que nos cairiam em cima. Assim, as minhas fantasias e os nossos problemas de dinheiro pairaram brevemente na cozinha. Mas vivíamos assim desde sempre. E, de certo modo, uniam-nos. O Dominique foi tomar duche enquanto eu levantava a mesa. No momento de sair de casa, ele vestiu um blusão que não combinava nada com a roupa que eu lhe preparara. Disse-lhe isso. Ele encolheu os ombros. Fomos no meu carro e dirigimo-nos à esquadra de Carpentras.

    Dois meses antes, o Dominique tinha sido apanhado por um segurança do Leclerc a tentar filmar debaixo das saias de três mulheres. Na altura, eu estava em casa da nossa filha Caroline e do marido, Pierre, na região de Paris, onde tomava conta do meu neto até começarem as aulas, e tínhamos ido passar o fim-de-semana a casa deles, na ilha de Ré. Eu estava lá quando o Dominique me telefonou, a falar com uma voz febril que não lhe reconheci. Balbuciava que perdera o telemóvel, que precisava de um código para activar o que acabara de comprar, e que mandara enviar esse código para o meu número. Dei-lhe o código mas, subitamente, tudo parecia confuso nesse homem habitualmente tão metódico e organizado. Quando regressei, e ele me foi buscar ao comboio, achei que emagrecera. Já em casa, desfez-se em lágrimas. Dizia que não queria perder-me. Veio-me imediatamente à ideia o meu pai quando a minha mãe faleceu.  Um homem que chora, para mim, é o meu pai aa soluçar e eu, junto dele, incapaz de o confortar. Quando vi o Dominique a chorar, receei que estivesse doente, que o cancro tivesse voltado para o levar.

    Assim, quando acabou por me confessar que perdera o juízo, uma semana antes, no Leclerc de Carpentras, que filmara debaixo das saias de três mulheres, e que fora parar à esquadra, onde lhe tinham confiscado o telemóvel e o computador portátil, fiquei preocupada mas quase aliviada. Era péssimo imaginar o meu marido a perseguir aquelas mulheres, insuportável ver nele um agressor, mas menos irreversível na escala dos meus receios, onde todo o drama se mede à luz da morte. Nesse dia, disse-lhe que aquilo ficaria entre nós, que aceitava não contar aos filhos, os quais ficariam desgostosos, que não o deixaria, mas que ele tinha de pedir desculpa às mulheres a quem filmara, consultar um psicólogo, e que tal não se repetiria, senão ir-me-ia embora. Prometo-te, garantira ele, não acontece nunca mais. Claro que eu não poderia esquecer, nem apagar, o que ele fizera, era um alerta, mas um alerta de quê? Não sabia. Queria que a vida continuasse, apesar de tudo, na nossa casinha amarela com portadas azuis, a decoração da nossa reforma no Sul. A piscina fora coberta. Os loendros já não floriam. O Outono vinha a caminho.

    Em meados de Outubro, eu estava de volta a Paris, dessa feita para tomar conta das filhas do meu filho David, o qual iria submeter-se a uma operação ligeira. Eu tomava conta de uns e de outros quando mo pediam. O calendário das férias escolares tornara-se o meu. Do mesmo modo, ajudava num imprevisto. Era a Maminou, a avó ambulante. Não tinha medo de envelhecer,  sabia que era um privilégio.  Em casa do David, passava muito tempo com as minhas netas. Todas as manhãs, a Charlize recusava vestir tudo o que não fosse um casaco. A irmã gémea, Clémence, gostava de mudar de roupa e apreciava os vestidos de princesa. Tinham nove anos, a idade com que fiquei sem a minha mãe.

    Nessa manhã, não ouvi o telefone tocar. Estava sentada nas bancadas de um campo de ténis. A Charlize corria atrás de cada bola, eu e a Clémence seguíamo-la com o olhar. Já jogava melhor com a mão direita. A apareceu uma chamada perdida. Um número não identificado nos meus contactos. Retribuí a chamada um pouco mais tarde. «Está? Queria falar comigo?» O homem apresentou-se: «Fala o Sargento Laurent Perret, da esquadra de Carpentras. Ouvimos o seu marido, há umas semanas, a senhora sabe de que se trata?» Disse que sim, que o meu marido me contara tudo. A minha resposta ressoava em mim como vitória, a transparência e a confiança no coração de um velho casal. Acrescentei que vivia há cinquenta anos com esse homem e que ele nunca me fizera vileza alguma.

— Quando voltam?

— A 21 de Outubro. Posso ir à esquadra assim que chegar.

— Não, não, temos muito que fazer. Venha no dia 2 de Novembro com o seu marido.

    Chegou assim o dia 2 de Novembro. O Dominique não tinha razões para soluçar como o meu pai quando faleceu a minha mãe. «Não te preocupes, vai ser uma formalidade», disse-lhe quando chegámos à esquadra, um prédio pequeno e moderno sem pretensões, amarelo como a nossa casa, da cor das flores da Provença. Entrámos, mascarados com aqueles quadrados azuis pálidos que acabaram por tapar todas as bocas do planeta. Mal nos anunciámos na recepção, apareceu um homem de cabelo à escovinha, pendurado na varanda do primeiro andar. «Vou falar com o senhor Pelicot, primeiro, com a senhora, depois», disse-nos.

    Era o sargento Perret. O Dominique subiu, sem se virar para trás, naquele blusão desirmanado. Pouco depois, o polícia reapareceu e fez-me sinal para lá ir. Subi a escada em passo ligeiro e a pensar que ia ter com o Dominique. Não estava no gabinete. Laurent Perret mandou-me sentar à sua frente, mas a boa distância da secretária, de tal modo que pude tirar a máscara. O homem diante de mim era grande, talhado em bloco, com uma cara enorme e ombros largos. Personificava perfeitamente a autoridade e, contudo, havia nas suas maneiras comigo algo de brando e prudente. Desatei a atrapalhar-me com desculpas pelo que o meu marido fizera. O polícia pediu-me que dissesse a minha identidade, data e local de nascimento: 7 de Dezembro de 1952, em Villingen, Alemanha. Nome de solteira: Guillou. Filiação: Yves Guillou e Jeanne Prot. Perguntou-me como nos tínhamos conhecido, eu e o Dominique, respondi que tinha sido em casa da irmã da minha mãe, no mês de Julho de 1971, e acrescentei que tinha sido amor à primeira vista. Pediu-me para descrever a personalidade do meu marido.

— É uma pessoa benevolente e atenciosa. Um homem inteiro, e é por isso que ainda estamos casados.» O polícia perguntou se costumávamos receber amigos. Respondi que recebíamos com regularidade e, quando me pediu para descrever um serão típico, respondi que não havia rotinas, não éramos velhinhos. Perguntou-me a que horas me deitava, se era ao mesmo tempo que o meu marido, se eu dormia a sesta à tarde. Fiquei um pouco admirada com as perguntas.

— Fazem troca de casais?

Eu já não percebia nada. Dei comigo a responder que não, nunca, que horror, dei comigo a responder que a troca de casais era inconcebível, para mim. Não suportaria que outras pessoas me tocassem. Que preciso de sentimentos. Perguntou-me se pensava conhecer o meu marido a ponto de ele não poder esconder-me nada. Respondi que sim.

— Vou mostrar-lhe fotografias e vídeos que não lhe vão agradar.

Ouvi-lhe na voz mais do que embaraço, um misto curioso de perigo e protecção. Informou-me que o Dominique acabava de ficar em prisão preventiva, por violações agravadas e administração de substâncias nocivas. Creio que chorei. Aproximei-me da secretária dele. Tornei a pôr a máscara. Ele pegou numa fotografia e estendeu-ma. Uma mulher com um cinto de ligas está deitada de lado. Um negro está deitado atrás dela, a penetrá-la.

— É a senhora, nesta fotografia.

— Não sou eu, não.

Peguei nos óculos e ele noutra fotografia. A mesma mulher deitada de costas, um homem tatuado ao lado dela.

— É a senhora.

— Não.

Não reconhecia os indivíduos. Nem a mulher. Tinha as faces tão flácidas. A boca tão mole. Era uma boneca de trapos.

Terceira fotografia. O homem não tirara a camisola de bombeiro.

Eu não ouvia o que o polícia me dizia. Aliás, ouvia mas não me dizia respeito. Era como o eco longínquo de uma voz. «É o seu quarto. São os seus candeeiros de mesa-de-cabeceira?»

E depois? Não sou eu, inerte naquela cama. É uma fotomontagem. Obra de alguém que quer mal ao Dominique. Ainda ontem à noite, perante as imagens de uma mulher entubada devido ao covid, no noticiário na TV, ele me disse o quanto lhe custaria se me visse assim.

O polícia largou um número. Cinquenta e três homens teriam ido a minha casa para me violar.

Pedi água.

Tinha a boca paralisada.

Uma psicóloga entrou no gabinete. Uma jovem.

Estou longe, mesmo estando todos no mesmo espaço.

Não preciso dela. Estou segura da minha felicidade, da nossa felicidade. Em breve, faremos cinquenta anos de casados e a visão ainda límpida de quando nos conhecemos. O sorriso dele. O seu olhar tímido. Os cabelos compridos encaracolados pelos ombros. A camisola de marinheiro. Ele ia amar-me.

O meu cérebro parou no gabinete do sargento Perret.


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