Sobre o totalitarismo da imagem (e gatos!)

 

 

Miguel Esteves Cardoso para o Público:

O penteador de gatos de Istambul
Faça-me o favor de ver o vídeo de meio minuto em que um velho engraxador de Istambul escova um gato de rua, coisa que faz todos os dias, e sempre à mesma hora.

Agora imagine que não leu o parágrafo anterior e que encontrou o vídeo por acaso, quando estava à procura de escovas turcas.

Ou, melhor ainda, esqueça o vídeo e imagine que está em Istambul, virou uma esquina, e deu com o engraxador a pentear um gato.

Não tem maneira de o filmar. Volta para o hotel e recebe uma chamada de Portugal. Como descreve o que viu?

Ou então manda o vídeo a uma amiga que não tem rede e que não tem maneira de o ver. Como descreve o que viu?

Deve haver muitos outros pais que fazem isto com os filhos. Antes de olhar para um vídeo que nos querem mostrar, pedimos que nos diga em palavras o que é que o vídeo mostra, para que usem a língua portuguesa para nos dizer o que eles viram naquele vídeo.

Dizem-nos que ler e escrever estão em declínio — e isso é infinitamente discutível, de preferência por escrito —, mas o que está mesmo em declínio é o descrever.

Mesmo nos velhos telefonemas compridos que também estão em declínio, já ninguém perde tempo a descrever imagens que são mais fáceis de fotografar ou filmar.

Pergunto "Como é que estão as montanhas?", à espera de ouvir o meu amigo a contar o que está a ver. E o que é que ele faz: fotografa e diz "Já te mandei".

Vivemos num totalitarismo da imagem. A imagem cala-nos. Substitui-nos. Se há uma mentira venenosa nesta vida, é aquela da imagem valer mil palavras.

As fotografias e os vídeos são todos do passado. Estão parados. Estão fixos. São iguais para toda a gente e para todo o sempre. Estão mortos.

Já a tua descrição, feita em cima do momento, com as tuas palavras, na tua voz, está viva. Está a ser feita. Está a ser feita só por ti, só para mim. É rica. É original. E pode ser alterada por mim: diz-me mais sobre a escova que esse engraxador está a usar.

Está calor? Cheira a bolos? Estás feliz?


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